Cinco anos atrás, sofrendo com um calor desgraçado nessa mesma sala em que estou agora, convidei minha namorada a largar tudo o que tínhamos. Fomos para uma ilha gelada no topo do mundo. Seria bonito dizer que comecei uma nova vida naquele lugar, mas a verdade é que foi um período intenso em que eu apenas aprendi, finalmente, algumas das coisas mais básicas sobre viver. Entendi o valor do que é simples, dos olhares, dos suspiros, dos sabores, dos cheiros, dos sons, do silêncio. Realizei meus sonhos até esgotar os que tinha e depois passei a me ocupar de sonhar novos. Eu ainda tinha 20 e poucos anos. Era uma conquista maior do que minha idade suportava e, sem estrutura, desmoronou. A euforia das descobertas virou ansiedade incontrolável por mais mudanças. Foi preciso passar férias no Brasil pra sentar com meu antigo eu e definir com ele como seria a próxima versão de nós dois. É claro que não deu certo. Saiu tudo diferente do planejado. E foi bom demais. Eventualmente mudamos para outra ilha onde encontrei coisas maravilhosas e inesperadas. Mas as estações passaram e a inquietude voltou. De novo no tempo certo, viemos pra casa ter com o passado. Desta vez, no entanto, me ocupei de uma pesquisa mais profunda. Doei 100% das minhas férias aos outros e encontrei todas as pessoas que consegui. Todas mesmo, ao ponto ridículo de escrever uma tabela pra garantir que não deixaria ninguém de fora. Vi quase todos os amigos que importavam. Aqui não vou ser modesto e dizer que foi mais do que eu merecia o carinho que recebi. Porque essas 2 semanas mais felizes da vida me custaram 31 anos de trabalho duro na manutenção do único talento real que tenho: a amizade. Por isso encerro no lugar certo, ao lado dos meus amados, mais um ciclo fantástico de coisas que eu jamais esperaria receber. É hora de mudar de novo, mas não necessariamente de país. Volto a Londres certo de que minha história com essas pessoas já está escrita. Agora preciso de novas histórias e novos espaços. Esse aqui, que me acompanhou desde o primeiro instante desses 5 anos intensos, vai ficar adormecido. Já não sei o que contar e nem como contar. Não aqui. A escassez de posts comprova. Foi um período bonito, com começo, meio e um intervalo indefinido que começa agora. Se alguém quiser saber como eu fui nesse tempo, os textos antigos contam tudo. Acompanhei nascimentos e mortes, e nasci e morri eu mesmo mil vezes nas linhas passadas. Obrigado pelos longos minutos que cada um me doou ao ler meus relatos intermináveis. Obrigado pelo coleguismo de muitos e pela inestimável amizade que ganhei de alguns. Foi uma honra! Espero receber sempre notícias de vocês. O companheirismo não tem regras. Se eu não procurá-los por qualquer motivo, me procurem. Essa não é mais a minha época de falar, mas estarei sempre disposto a ouvir...
cycles
| author: Mr. Lemos1st morning
| author: Mr. LemosAcordei com fome. Com fuso.
Eram 5 da manhã, hora local.
No meu estômago, passava das 9.
Andando pelo corredor que não conheço, vi a cozinha.
Uma caixa de pizza da noite anterior guardava um desejo de alguns anos.
Só faltava estar gelada, pra ser perfeita.
Mas estava quase quente. A pizza, eu e toda a casa.
Percebi o corpo molhado.
Nem o ar-condicionado me salvou.
Pensei em tomar banho.
Preferi comer uma banana.
Duas. Três.
Me espantei com o gosto diferente que não sei descrever.
Por isso continuei comendo. Pra ser capaz de explicar.
Enquanto mastigava a última, achei a resposta na ponta da língua.
O gosto era de banana.
Depois de tanto tempo comendo a fruta importada, com sabor de água, tinha esquecido.
Segui pelo corredor.
Cheguei ao banheiro e juro que ouvi, assim que acendi a luz, um galo cantar.
Acho que o acordei.
Ele cantou de novo e mais uma vez, junto com um amigo.
Fazia tempo que não ouvia um Cocoricó.
Não que não exista galo onde moro, mas lá eles cantam Cockadoodledoo.
É engraçado que todos os galos cantem sempre a mesma música, embora mude a letra de um país pro outro...
Abri a janela da sala.
O ar que veio de fora estava mais quente do que o de dentro da casa.
Já começava a clarear.
A rua virou um zoológico.
Eu acordei o galo que acordou os cachorros que acordaram as pombas que acordaram todos os outros bichos de penas.
Do meio das árvores do parque em frente veio mais um som que eu não lembrava.
Bem-te-vi.
Essa música, até onde sei, só se canta nesse continente.
É estranho.
Não é mais o meu lugar, apesar dos barulhos familiares.
Já encontrei algumas das pessoas mais especiais e foi maravilhoso.
Só que falta algo.
O que existe de invisível entre eles e eu é permanente.
Todo o resto, o físico, é temporário.
Mas pensando bem, não é assim com todo mundo?
Não digo que isso me faça sofrer.
Dá até uma sensação de liberdade.
Por outro lado, tem também um sentimento triste de saudade que não vai passar jamais.
Saudade do que fomos e do que jamais seremos de novo juntos.
Cada escolha tem um preço e esse é o que eu terei eternamente a pagar:
Estou em casa, mas sou visita.
home
| author: Mr. LemosIndo pra casa, dois anos e meio desde a última vez.
Se aprender novas palavras e viver coisas diferentes, eu volto pra contar.
Beijos aos que ficam, aos que vão e aos que estão...
auld lang syne
| author: Mr. LemosDaqui a poucas horas embarco de volta pra casa. Comprei presentes para vocês - uma cerveja e um chocolate - mas percebi nesse instante, lendo suas mensagens de despedida, que não vou encontrá-los para entregar. Acabo de viver alguns dos dias mais intensos da minha vida e boa parte dessa intensidade vai se perder quando eu chegar e não tiver vocês, meus amigos, para contar tudo durante uma das nossas grandes ceias. Espero que essa ilha seja tão boa pra vocês nessa nova etapa quanto foi da primeira vez. Enquanto se adaptam, preciso que me façam alguns favores:
Ao saírem do aeroporto de Dublin, a caminho da casa nova, pensem em todas as viagens malucas que fizemos juntos partindo daí: a primeira vez que dirigimos um carro do lado errado da rua, o quase naufrágio, as suspeitas de bomba num aeroporto e numa fronteira terrestre, o deserto interminável que atravessamos com fome e a montanha gigante que quase nos matou de frio durante a subida. Guardem essas aventuras com carinho na memória e depois se concentrem nas viagens que não fizemos. São elas o combustível dos próximos anos.
Vocês vão chegar na primavera, em tempo de ver os parques ganharem cores e as pessoas perderem a vergonha. Quando esquentar, lá pro fim de maio, reservem uma tarde para sentar sobre um pano estendido na grama do Belgrave Square. Observem com atenção os rapazes branquelos sem camisa e as moças bronzeadas sem calça. Provavelmente muitos deles estiveram no mesmo lugar naquela tarde ensolarada em que crianças brincavam ao nosso redor quando a japs e eu anunciamos que estávamos de mudança. Até hoje não sei se sua reação foi de alegria ou de tristeza, mas eu fui muito feliz porque no fim vocês resolveram vir junto.
Agora que vocês voltaram, meus amigos, se puderem, caminhem sem pressa pela Camden Street e lembrem que nossa história começou lá. Façam isso de manhã, quando ainda tiver alguém distribuindo jornal na rua. Ao pegarem o exemplar do dia, sorriam para a pessoa de uniforme que faz a entrega. Nós todos já fomos ela e, de um jeito ou de outro, é por isso que estamos aqui hoje.
Em pelo menos uma das suas idas ao mercado, planejem a compra do jantar para 4, e não para 2. Nós estaremos juntos nessa noite, mesmo que em pensamento, alimentando nossa alma eternamente faminta da companhia de vocês. Depois de comer, saiam para caminhar até o triângulo de Ranelagh, para recordar como era maravilhoso o tempo em que a distância entre as nossas casas era quase simbólica.
Se sentirem saudades, podem ir à praia de Sandymount, onde eu costumava ver o sol nascer. Tenho certeza de que vocês nao vão morar longe. Mas também sei que não devem acordar tão cedo. Então, sem compromisso, vão para lá a qualquer hora, de preferência à pé e lentamente. Procurem com atenção e acabarão encontrando as marcas dos sapatos que me carregaram por aquelas ruas nas minhas corridas matinais. Ao chegarem, virem para o sudeste e contemplem o mar que inspirou muitos dos meus melhores dias. É certo que eu estarei olhando na mesma direção, no sentido de vocês. Daqui, da capital da ilha vizinha, não terei a chance de encarar o mar, mas seus olhos serão os meus, como tantas vezes já foram.
Por último, o mais importante: preciso que vocês peguem o trem e passem uma tarde em Howth. Façam isso em um sábado de sol. Sei que é um dia raro nessa ilha, mas esse é um pedido especial e ninguém é tão capaz quanto vocês de entender a importância disso. Mari, compre um saco de peixes na venda do lado esquerdo do porto e dê para as focas. Caco, tome uma Guinness no pub ao lado da estação e peça uma porção de fish and chips. A comida vem embrulhada no jornal, você vai gostar. No ritmo de vocês, subam a montanha e deem a volta na costa inteira, até chegarem ao farol. Por favor, não desistam no meio do caminho. Como vocês sabem, eu planejava fazer essa caminhada uma última vez antes de mudar, quase dois anos atrás, mas fui impedido por um problema de saúde. Agora quero que vocês façam isso por duas razões. A primeira é porque vocês são meus irmãos queridos e eu estarei realizando meu desejo nos seus passos. A outra é porque eu tentei levá-los juntos para esse passeio durante todo o tempo em que moramos aí, e não fui capaz. Vocês devem tentar fazer diferente tudo o que não deu certo nos anos anteriores e essa é a forma mais prazerosa de começar. Sei que a vida vai devolver a vocês o sorriso que ficou escondido nos últimos meses. Por isso, ainda que estejam muito cansados, não desistam da minha montanha. Tem uma alegria indescritível no final dela.
Esse é o começo do fim de mais uma época que passamos juntos, mas é principalmente o início de uma nova vida pra vocês. Foi bom não estar aí para vê-los partir. Estou feliz pelo seu entusiasmo, mas preciso registrar o tamanho do vazio que é voltar para um lugar onde vocês não estão...
http://www.youtube.com/watch?v=TWT-4UTwdE8
*Auld Lang Syne é uma canção escocesa tocada em despedidas e na celebração do ano novo
the girl from the czech republic
| author: Mr. Lemos"Sabadão de folga, né?"
"É," respondi, "e você? Vai descansar amanhã?"
Ele bufou e a tesoura cortou uns cinco metros de cabelo.
"Que descansar porra nenhuma! Como é que eu vou fazer isso? Preciso trabalhar pra ganhar dinheiro e pagar as contas."
O corte ficou tenso. Me calei. Não ia ter papo com o sujeito. Mas ele insistiu:
"E aí, vai fazer alguma coisa hoje à noite? Sair, curtir por aí?"
Respirei fundo e fui pro segundo round:
"Nada, rapaz... tô numa ressaca gigante... voltei tarde de uma festa. Você tem planos? Vai sair com os amigos?"
Menos 8 metros de cabelo.
"Não dá pra sair! Eu não saio! O aluguel é caro, tem as contas, a comida... não dá! Eu não frequento balada!"
"Nem eu", retruquei achando que concordar seria uma boa tática, "Vou ao pub vez ou outra, mas não faço balada. Sabe como é... sou casado."
Quase perdi a orelha que estava na linha da tesoura.
"E daí? O que tem a ver? Pode ser casado e ir pra balada! É só respeitar a mulher e ela te respeitar! Esse é o problema das pessoas... ninguém é confiável..."
A essa altura eu já estava praticamente careca. Decidi arriscar tudo:
"Rapaz, vc brigou com a mulher?"
O barbeiro me encarou pelo espelho e suspirou. Depois baixou a tesoura e o pente, e começou a contar a história de como conheceu e se apaixonou por uma garota da República Tcheca. Eles estavam namorando e ele arranjou um bom emprego pra ela no restaurante de um amigo. A moça não tinha experiência nenhuma, mas aprendeu as coisas em tempo recorde e no segundo dia já estava servindo as mesas sozinha. Foi o melhor trabalho que ela teve em Londres. Deu pra juntar bastante dinheiro. Os dois moravam juntos nessa época. Era tudo bom demais. Até que um dia a namorada achou que já tinha feito uma boa poupança e foi embora para o país dela, pois não aguentava de saudades da família. O barbeiro ficou triste, mas não pode fazer nada. Da República Tcheca, ela ainda voltou a procurá-lo várias vezes, com palavras de saudade e pedidos de socorro. O dinheiro acabou e os irmãos não ajudavam muito. Mas o barbeiro estava com o coração endurecido e nunca mais estendeu a mão.
Quando acabou a história, levantei, dei uma boa gorjeta pra ajudar no aluguel e notei que duas coisas permaneciam no rosto dele: o alívio temporário de depois da nossa conversa e a tristeza permanente de antes. Foi, infelizmente, um desses momentos em que eu vejo o desespero nos olhos da pessoa e morro de pena das longas horas que ela vai desperdiçar sem conseguir dormir. Aquele homem certamente vai passar no supermercado no fim do expediente pra comprar uma cerveja com o dinheiro extra que eu paguei. Depois, sentado sozinho no sofá empoeirado da casa sem aquecimento, vai abrir a lata e dar um longo primeiro gole. Então o barbeiro vai pensar no abandono da namorada e na dureza de grana, e vai buscar na memória um motivo para tanto sofrimento. Nesse processo doloroso, ele vai lembrar de todas as coisas ruins que já fez na vida. E então vai perceber que a maior de todas foi... o corte do meu cabelo...
Conto Moderno 9 - Pinóquio
Marcadores: Conto moderno, Contos, Pinóquio | author: Mr. Lemos
"Seria um ótimo parceiro pra jogar truco", pensou o sábio velhinho.
Quando acordou na manhã seguinte, com a mãe de todas as ressacas, Gepeto percebeu que aquela figura inerte só serviria mesmo como espantalho. O velho caiu em depressão e começou a chorar desesperadamente, mas foi interrompido pela visita de uma tiazona com um vestidinho ridículo e um chapéu mais feio ainda. Era a vizinha, de nome Fada, que tinha uma consulta urgente:
"Desculpe chegar assim no meio do chororô, mas... Porra, Gepeto! Tá foda a conexão com a internet! Essa sua empresa telefônica é uma bosta mesmo! Eu dou play num video e tenho que esperar uma vida até carregar tudo. Desse jeito, quando eu terminar o capítulo da novela de ontem, já passou o de amanhã. Me ajuda!"
Gepeto considerou o pedido muito difícil e aplicou um truque na Fada:
"Se você conseguir dar vida a esse boneco, eu mando os técnicos arrumarem a sua conexão."
No fundo, o velho sabia que dar um acesso decente à internet naquele país era tão fácil quanto fazer uma garrafa jogar truco. Mas a Fada era uma pessoa muito influente. A única coisa que o poder e o dinheiro dela não compravam de jeito nenhum era uma boa conexão 3G nos celulares. Só que isso estava prestes a mudar. Atendendo ao pedido da Fada, os melhores cientistas se reuniram e deram movimentos mecânicos ao boneco, que ganhou também um software de inteligência artificial e acabamento em madeira. Ficou parecendo um menino de verdade - um bem feio. Maravilhado, Gepeto agradeceu à Fada e prometeu que em um mês todos os problemas telefônicos estariam resolvidos. O velho batizou o boneco de Pinóquio e já começou a distribuir o carteado para a primeira partida. Mas Gepeto levou uma surra no jogo, ficou nervoso, chutou o baralho, subiu na mesa, coçou a bunda e gritou com Pinóquio:
"Moleque safado e sem respeito! Como castigo, você vai passar o resto do domingo sentado na poltrona assistindo Faustão e Gugu."
E assim fez Pinóquio. Quando o dia acabou, a inteligência artificial do boneco tinha virado burrice natural. E Gepeto nunca mais perdeu uma partida de truco para ele. Mas Pinóquio passou a assistir programas de televisão sem parar e com o tempo ficou tão burro a ponto de nem reconhecer mais os números e os desenhos das cartas. O velho Gepeto se arrependeu de viciar o garoto naquela porcaria e resolveu mandá-lo estudar. A caminho da escola, Pinóquio pensou em fugir para uma loja das Casas Bahia, pra ficar vendo tv de graça, mas surgiu um grilo cheio de conselhos:
"Pinóquio, a Fada mandou eu garantir que você obedeça o velho. Vai pra escola!'
"Bicho, na boa," ponderou o boneco inconformado, "desde quando grilo fala?"
"Sei lá. Me colocaram na história e eu tô aqui. E você que fica aí pagando de gatinho, mas é feito de vidro e madeira? Sem contar esse nome... Pinóquio jamais vai aparecer numa latinha de refrigerante."
"Eu já vi em várias.", mentiu o boneco. Imediatamente o nariz dele dobrou de tamanho.
"Isso é obra da Fada," explicou o grilo. "Ela odeia mentira e instalou esse negócio que aumenta sua napa toda vez que você tenta enganar alguém."
"Mas eu não tô mentindo. Já vi várias latinhas com o meu nome."
E o nariz cresceu mais um tanto. Pinóquio desistiu de argumentar e retomou o caminho da escola. Mas depois de alguns passos, deu de cara com um gato e uma raposa que o convidaram para ir a um teatro de marionetes.
"Putaquepariu! Agora o zoológico inteiro fala?", desabafou o boneco, "Deve ter sobrado muita cachaça nessas garrafas que formam o meu corpo. Não é possível! Vamos logo lá ver esse teatro. O mundo tá uma zona mesmo..."
E lá foram todos, apesar dos protestos do grilo. Acontece que o boneco foi enganado pela raposa e pelo gato, e eles o venderam a um empresário de reallity show. Pinóquio foi colocado numa casa cheia de câmeras, junto com vários outros garotos que não gostam de ir à escola. Quando contaram a ele que aquele era um programa de TV muito famoso, o boneco ficou feliz. Mas o tempo passou e um dia Pinóquio percebeu que era manipulado junto com as outras pessoas. Então ele ficou chateado e pensou:
"De fato, como disseram o gato e a raposa, isso aqui é um teatro de marionetes".
O boneco pediu pra sair, mas ouviu que isso só seria possível com a ajuda dos votos dos telespectadores. O grilo falante correu até a casa de Gepeto para pedir ajuda. Quando terminou de ouvir o relato, o velho exclamou:
"Minha Nossa Senhora! Essa pinga é da boa mesmo! Faz até grilo falar."
Como não estava fazendo nada importante, Gepeto pegou o carro e foi até o estúdio de televisão para tentar resgatar o menino. Lá ele foi informado de que só havia um jeito de resolver a questão: votando por meio de um telefonema que cobra uma fortuna na conta das pessoas. Tendo ele mesmo enriquecido às custas de vários tontos que usam telefone, Gepeto achou a situação justa. A votação acabaria em poucas horas e a disputa estava apertada. Era a última chance de libertar Pinóquio ainda naquela semana. Se falhasse, Gepeto teria que esperar até o próximo domingo, com Faustão e Gugu no meio. O vovô acelerou de volta pra casa. Ele queria ligar do telefone fixo porque era bem mais barato. Mas estava um puta trânsito e, pra piorar, tinha blitz da nova lei seca. O velho foi parado e quase explodiu o aparelhinho do policial com aquele bafo desgraçado.
"Seu Gepeto, o senhor tá em cana!", disse o guarda.
"Mas doutor policial, vossa excelência veja que eu só comi um bombom de licor!"
"Tá de sacanagem, vovô?"
"É verdade! Pergunta aqui pro grilo falante! Além disso, eu preciso chegar logo em casa pra fazer uma ligação e salvar meu boneco de garrafa e madeira que está preso no reallity show."
O guarda suspirou.
"UM bombom de licor?"
"Claro!"
"Ok, vai pra casa. Eu estou mesmo torcendo contra o boneco..."
Gepeto voou e finalmente chegou para pegar o telefone e discar. O programa estava muito próximo do fim. Pinóquio só precisava de mais um voto para se livrar de vez daquela casa cheia de câmeras observando pessoas que não faziam nada. Ele sabia que até jogar truco com um velho bêbado seria mais interessante. Antes que Gepeto pudesse completar a ligação, bateram na porta. Era a Fada, de novo com aquela roupa ridícula, parecendo a rainha da Inglaterra. Ela tirou o chapéu e disse gentilmente:
"Velho safado, já passou um mês e a internet continua uma porcaria. Vou mandar seu boneco para a reciclagem."
"Peraí, Fada. Me dá mais uns dias. E antes me dê licença, porque preciso fazer um telefonema urgente pra salvar o Pinóquio."
O relógio corria depressa. Faltavam poucos instantes para o programa acabar. Gepeto voltou para o telefone, mas foi interrompido pela campainha. Era o grilo, que já chegou com mais um conselho:
"Gepeto, eu tava pensando... acho que você deveria parar de beber. Honestamente, é ridículo um cara da sua idade acreditar em grilo falante. E essa sua paixão por um menino narigudo com cara de madeira também pega mal. Arranja uma namorada! E essa tiazinha aí da roupa estranha? Tá rolando?"
"Depois a gente discute isso, grilo! Depois! Agora eu preciso fazer essa ligação..."
O velhinho tornou a pegar o telefone, mas a campainha tocou novamente. Ele pensou em pedir para o grilo atender, mas preferiu evitar mais uma discussão infrutífera. Em alguns minutos, Pinóquio estaria condenado a passar mais uma semana no reallity show. Gepeto correu para abrir a porta e deu de cara com o guarda que o havia parado no trânsito:
"E aí, ligou? O boneco vai sair?", perguntou o policial.
"Estou tentando ligar. Tá difícil. Todo mundo vem interromper. Primeiro a Fada, depois o grilo, agora você..."
"Fada? Grilo? Escuta, vovô... de verdade, o que tinha naquele bombom de licor?"
"Depois a gente fala disso. Faltam trinta segundos. Eu preciso ligar."
A Fada, o grilo e o policial observavam atentamente os movimentos ágeis de Gepeto. Os dedos dele eram incrivelmente rápidos sobre as teclas. Até a raposa e o gato apareceram na janela pra torcer. O velho terminou de discar, colocou o fone no ouvido e... silêncio. Deu pau nas linhas telefônicas.
A Fada riu até cair a dentadura, se sentiu vingada e saiu de lá feliz da vida. Ela viveu e morreu sem jamais ter uma boa conexão com a internet, o que acabou se provando em benefício próprio. Sem capacidade de fazer upload de fotos, ela evitou se expôr na rede com aquelas roupas bregas usadas em desenhos animados dos anos 80.
O guarda foi detido numa operação da lei seca, tempos depois, num dia de folga. O bafômetro acusou embriaguez e o policial responsável pela blitz até acreditou quando ouviu que era tudo por causa de um bombom de licor. O problema é que o guarda ficou feliz demais, virou para o lado e cochichou "Tá vendo, grilo? Mais um otário que cai..."
Hoje ele vive em um manicômio esquecido no interior do pais e, apesar de ficar numa cela isolada, jura que não está sozinho.
Gepeto vendeu a companhia telefônica e passou o resto da vida sentado na poltrona, esperando o boneco voltar para casa. Nem ele nem ninguém voltou a ter notícias de Pinóquio. Como não ligava mais a tv aos domingos, o velho nunca soube como terminou o reallity show. Antes de morrer, ele ainda encontrou a felicidade, quando desistiu do truco, por falta de parceiro, e passou a jogar paciêcia. Eventualmente Gepeto parou de beber. Mas, só por garantia, colocaram duas garrafas ao lado dele no caixão.
FIM
e se um dia...
| author: Mr. Lemos
Já faz quase 17 anos, meu bem. Foi provavelmente nas primeiras horas do primeiro dia do primeiro emprego da minha vida que te vi pela primeira vez. Nunca foi exagero quando você disse, em tantas ocasiões durante a nossa história, que me conheceu nas fraldas. Embora você falasse pra fazer graça, sempre esteve certa ao dizer que eu ainda era um moleque virgem que não bebia e não sabia nada da vida.
Eu fui crescendo ao seu lado e com você aprendi muitas das coisas que não deveria fazer. De todos os maus exemplos que tive, você deve ter sido o melhor. Não fosse o seu sofrimento, eu passaria a vida inteira ouvindo as desgraças em que suas decisões te colocavam. Era triste, mas divertido - e sei que não preciso te explicar esse paradoxo, porque você entende. Você chorava no meu ombro desde que ele ainda era tão pequeno que parecia não caber a sua cabeça já tão cheia de coisas. Agora é estranho perceber que você fez meu ombro forte e hoje não está aqui pra se apoiar nele.
O primeiro namorado seu que eu conheci foi - e sempre será - o meu favorito. Talvez seja o seu também, já que ele se tornou o pai dos seus filhos - até da que você já tinha. Ele tocava violão pra gente, te fazia feliz, te dava problemas e tinha aquele sorriso adorável, com os dois dentes de cima um pouquinho separados. Quando você ficou grávida, passou a reclamar muito mais do que de costume. E era engraçado porque eu sabia que mesmo depois de dar a luz, aquilo não iria mais mudar. A melhor parte de muitos dos meus dias era te encontrar de manhã e ouvir: "Ô, meu bem, tá tão difícil." Até hoje, sempre que penso nessa frase que te define tão perfeitamente, tudo no meu caminho fica muito mais fácil.
Nós achamos que aquele parto tinha sido um sofrimento e que você não poderia mais engravidar, e nos surpreendemos quando sua barriga encheu de novo. Foram muitos sustos naqueles menos de seis meses agitados que o seu garotinho levou pra se construir e sair de dentro de você. E foi ruim demais te ver triste no hospital, incerta sobre o futuro daquela criança que apareceu entre nós sem estar inteiramente pronta para nascer. Mas era você, meu bem, a mãe dele. E, assim como todas as outras coisas complicadas da sua vida, isso não deve ter sido por acaso. Porque você é bagunçada e chata, mas não deve existir outro humano com essa capacidade de amar tanto. Seu amor era provavelmente a única coisa no mundo inteiro capaz de fazer aquela vida tão frágil vingar. E ela vingou no seu colo e no seu cuidado, e se transformou num garotão lindo.
A rotina ficou difícil quando você se separou e precisou dedicar mais tempo às suas três crianças. Mas você conseguia ser mãe, trabalhar e sair pra se meter em confusões. Cansei de te ver apaixonada às segundas e ter que recolher no chão os cacos do seu amor às sextas. Eu sempre sabia como iam terminar suas histórias, mas elas jamais deixaram de ser interessantes e saborosas. Porque, embora tudo tivesse o nome de paixão, cada uma era incomparável. Dos seus olhos saiam todas as lágrimas possíves e na sequência saiam dos nossos peitos as maiores gargalhadas. Suas tragédias eram fonte inesgotável de alegria. Você estava constantemente no céu ou no inferno, e isso é o que te faz tão especial: você jamais viveu na terra com os outros.
Mas entre todas as coisas, o que eu mais sinto falta em você é de quem eu era ao seu lado. Você sempre despertou em mim essa vontade irresistível de falar a verdade. Com você eu nunca precisei conversar sobre o tempo ou sobre o preço do leite na padaria, porque nós não conseguíamos mentir um pro outro e jamais faltou assunto interessante. Eu conheci muita gente boa depois de você, mas jamais alguém tão ridiculamente sem disfarces passou tanto tempo perto de mim. Cada um tem um valor e uma história, e os seus são incalculáveis. É por isso que eu não poderia, meu bem - e não ousaria em tão poucas linhas - tentar contar sobre a sua vida ou sobre a nossa vida juntos. Escrevi essas breves lembranças agora porque você tem feito muita falta nos meus dias e porque às vezes é bom te lembrar do tamanho da sua influência na pessoa que eu sou, mesmo que isso seja ruim. Não é por seus dias floridos e maquiados de beleza que eu te amo. É por você ter sido honesta e me dado a chance de acompanhar de perto uma vida de verdade.
Achei há pouco um raríssimo comentário seu por aqui. Dizia:
"...e se um dia eu deixar de dar notícias, me procure, por favor...."
Estou te procurando, meu bem. Fazia tempo que eu não chorava de saudade...
a tale of two girls
| author: Mr. LemosHá um ano e meio a adolescente britânica Alice Pyne criou o blog Alice's Bucket List. O site, inspirado num belíssimo filme de 2007, tinha uma lista de desejos finais antes que Alice chutasse de vez o balde da vida. O primeiro post explicou a ideia, sem frescura: "...Vocês sabem que o ultrassom não foi muito bom e que o câncer agora está se espalhando pelo meu corpo... É chato porque ainda tem tanta coisa que eu quero fazer... Achei que seria divertido ter uma lista online e ir atualizando conforme eu realizar algo..." Por um desses fenômenos da internet, o blog ficou conhecido instantaneamente no país inteiro. Em dois dias chegaram milhares (mesmo!) de comentários, com todo tipo de oferta, desde uma palavra carinhosa até ajuda para realizar as últimas vontades da menina.
Quando eu soube dessa história, lembrei de uma moça simpática, a Simone Regina, que conheci por meio de uma amiga. A Simone estava com leucemia e, ao contrário da Alice, ainda tinha chance de viver. Então a esperança de continuar no mundo encheu o balde de desejos dela inteirinho e não coube mais nada. Em comum, além do câncer, as duas meninas tinham o blog. O da Simone contava as pequenas conquistas do dia a dia e pedia aos leitores uma ajuda simples, mas delicada: "doem medula óssea!". Havia fotos dela, carequinha, trabalhando como palhaça em hospitais para animar crianças; E tinha um video maravilhoso onde ela cantava com uma voz tão linda que me levou às lágrimas incontáveis vezes. Entrei na campanha, divulguei o caso para os amigos e comecei a me informar para um dia ser doador de medula. Alguns artistas do Rio ajudaram a espalhar o assunto, e assim ele continuou girando por muito tempo. Um dia o blog da Simone sumiu, junto com o video da música e a conta dela no youtube. Tentei contato por facebook, mas ela parou de responder. Então pensei que a Simone tivesse morrido e que a familia estivesse apagando as lembranças da época dolorida.
Enquanto lia o jornal na semana passada, o nome da Alice me chamou a atenção. A notícia trazia uma nota da família, publicada no blog. Aproveitei para voltar lá e vasculhar mais um pouco os posts antigos. Eram textos simples e diretos, sem pretensões nem pedidos. Várias vezes ela se desculpava por ficar algum tempo sem postar. Depois contava alguma coisa comum que tinha feito com a família, mas colocava tanto entusiasmo, que cada mínimo detalhe parecia uma conquista fantástica. E no meio do caminho sempre tinha um desejo ou outro realizado - e a consequente comemoração.
O Blog da Simone eu nunca mais vi, mas poucos meses atrás uma mulher me procurou e pediu para eu tirar do ar um post sobre ela. Disse que a Simone estava bem viva e que nunca havia tido leucemia, nem nenhum outro tipo de câncer. Pedi mais informações e chequei com a amiga que me apresentou o caso. De fato, tudo tinha sido uma farsa. A Simone se fazia passar por doente para conseguir atenção, presentes e benefícios. Minha amiga chegou a pagar viagens para ela, antes de descobrir a verdade. Foi um golpe enorme na confiança de muita gente. Mesmo decepcionado, ainda me forço a pensar que a mentira serviu, pelo menos, para aumentar a quantidade de cadastrados na lista de doadores de medula. Mas é só um consolo. Não muda os fatos. É claro que somos ingênuos - todos os que caímos na lábia da Simone. Essas coisas de doença quase sempre deixam as pessoas mais generosas. E acredito que isso seja mais do que bondade e muito mais do que soliedariedade. Talvez seja um jeito involuntário de agradecer ao mundo por ser o outro, e não a gente, quem está na pior. Ou não. De qualquer forma, é muito difícil não se envolver nas situações nesse tempo em que todo mundo pode fazer coisas incríveis como como publicar na internet uma lista de desejos finais e contar, em tempo real, para quem quiser saber, como são os últimos dias de uma vida.
No primeiro dia de 2013, saiu o último post escrito pela Alice. "Nem acredito que estou mesmo dizendo feliz ano novo a vocês... E não acho que algum médico esperasse que eu estivesse aqui, já que me mandaram de volta pra casa há mais de dois anos... Só tive um dia bom no último mês... Não tenho comido como deveria, então meus pais têm brincado com a comida pra ajudar... Obrigada pelas mensagens... eu leio todas, mas às vezes estou muito cansada para responder... A caravan que eu vou usar para a caridade deve chegar esse mês... Isso me deixa feliz, porque toda vez que planejo algo eu penso que não vou estar lá para ver acontecer... mas ainda estou aqui... Minha missão de ano novo é ganhar um pouco de peso, pra ter mais energia..."
O próximo post, 11 dias depois, foi aquele escrito pela família e publicado no jornal. "Sad news... Nossa querida Alice ganhou as asas de anjo hoje... Ela foi embora ao nosso lado... Estamos devastados e sabemos que nossa vida nunca mais será a mesma..."
Infelizmente, a doença da Alice era de verdade. Mas antes de morrer ela se esforçou e, com a ajuda de muita gente boa, realizou a maior parte dos desejos da lista. Nadou com tubarões. Viu baleias. Conheceu a banda favorita. Foi ao baile de formatura da escola. Dormiu em uma caravan. Arrumou o cabelo. Recebeu massagem nas costas.... Alice tinha 17 anos e todos os sonhos do mundo. Fez caber tudo num balde e o chutou. Em paz.
As pessoas adoecem e morrem todos os dias, mas cada vida que eu tiver a chance de conhecer, mesmo que por escrito, vai ser sempre especial pra mim. Que a da Simone seja longa e feliz...
bullshit
| author: Mr. Lemos
Uma vez eu li num jornal de Londres uma boa análise sobre a palavra bullshit (o equivalente em inglês ao famoso e popular papo furado). Era mais ou menos assim: 'Tanto a mentira quanto a verdade são limitadas pela mesma linha. A verdade é a base dela mesma e também da mentira. Afinal, até pra mentir é preciso ter como referência a verdade e se afastar dela. Qualquer coisa que não tenha como base essa linha, ou seja, tudo o que não é mentira nem verdade, é bullshit. Besteira.'
Infelizmente esqueci o nome do sujeito que escreveu isso. E não adianta buscar no Google, porque bullshit é o resultado de quase tudo o que está na internet. Foi exatamente por isso, por causa do tanto de bullshit boiando na rede, que essa análise sobre a palavra saiu no jornal. Aqui na Inglaterra (e imagino que também em muitos outros países) a web é motivo de processos judiciais e vale como prova nos tribunais. Toda semana alguém é condenado a pagar indenização ou vai para a cadeia por escrever bobagens no twitter ou no facebook. Veja bem: não estou falando de punições por publicar pornografia, divulgar pedofilia, dividir filmes piratas, contar mentiras caluniosas ou dizer verdades doloridas. As pessoas se dão mal e vão em cana porque, com tempo de sobra e falta de juízo, escrevem besteiras nas redes sociais.
Recentemente um adolescente inglês foi condenado a três meses de prisão porque fez piadas de gosto duvidoso sobre o desaparecimento de uma garotinha. O caso dela passava o tempo todo na tv, e o moleque quis fazer graça, aparecer para os amigos, ficar em evidência nas timelines alheias. Mas não era sério. Ele se deu mal por causa de uma simples brincadeira. Tiveram destino parecido outros jovens que, durante os tumultos de Londres, há um ano e meio, incentivaram pelo facebook o saque de lojas. Alguns acabaram presos sem roubar nada, sem sequer sair de casa. Precisaram se acertar com a justiça porque tiveram pensamentos bobos e registraram na internet. A mulher de um poderoso parlamentar britânico também fez isso muitas vezes. Escreveu tantas bobagens, que virou a rainha das gafes e, ameaçada em dois processos, fechou a conta no twitter. Na França, no ano passado, esse negócio de esposa de político falar na rede tudo o que pensa, chegou a ter impacto direto nas eleições parlamentares. E em todos esses casos não se tratava de verdades ou mentiras, mas de bullshit.
Por um lado, isso me aborrece muito. Sempre se fez piada de toda desgraça, e essa onda de politicamente correto está deixando o mundo careta e ridículo. Sem contar que tirar das pessoas o direito de falar ou de escrever o que quiserem é uma forma de escravidão. Isso é especificamente ruim na minha vida, porque eu sou um comunicador e minha sobrevivência depende da liberdade de expressão. Mas há de se enxergar benefício até mesmo nos males. Se há um lado bom nessa vigilância severa, é a chance de aprender o valor do silêncio e a importância de pensar melhor para poder expressar palavras de qualidade. Bullshit é uma coisa maravilhosa. É bom demais falar bobagem com os amigos e morrer de rir com coisas que não fazem o menor sentido. O negócio é saber o momento e, mais do que tudo, o local certo para fazer isso.
Ouvi dizer que os departamentos de RH das empresas agora fazem buscas online antes de contratar, e que levam em consideração o que o candidato posta nas redes sociais. Fiz uma revisão do meu histórico e percebi que escrevo palavrão pra caralho e que posto várias fotos tomando cachaça com um monte de gente. Não estou procurando emprego, mas fiquei torcendo pra que meu perfil fosse visto por potenciais empregadores. Porque um profissional decente da área de recrutamento deve saber que não existem recursos humanos mais básicos do que xingar e beber. E se um dia alguém deixar de me fazer uma proposta por causa disso, vou ficar muito feliz em não trabalhar para um hipócrita. Mas essa é só uma parte da discussão. Ninguém deveria precisar mentir sobre quem é na vida privada. Em contrapartida, o que se compartilha de pensamentos na internet pode provocar impressões muito ruins sobre as pessoas. Confesso que deixei de respeitar vários amigos nos últimos tempos. Se fossem todos sensatos e estivessem dispostos a ouvir, eu tentaria dizer que a coisa tá feia pra eles. E provavelmente já esteve pra mim também. Acho que durante a vida toda só escrevi bullshit. Agora estou tentando me controlar. Por isso uso tão pouco as redes e os blogs nos últimos tempos. Não tenho medo de processos na justiça, mas me assusta o julgamento público, o que os companheiros queridos pensam. Porque eu olho as timelines e tenho uma opinião cada vez mais pobre sobre o cérebro das pessoas. E morro de medo que também pensem de mim que a inteligência encolheu.
Acabou o tempo em que calar a boca era seguro.
Agora é preciso cuidar do que dizem os dedos.
O resto é bullshit.
i wish...
| author: Mr. LemosTenho uma enorme dificuldade social em época de festas coletivas. Nunca sei direito o que dizer às pessoas. Muitas vezes ligo com um ‘Feliz ano novo, tudo de bom e aquela coisa toda que todo mundo fala...’, o que deveria ser entendido como ‘saúde, paz, alegria, amor, sucesso, etc.’ Mas a verdade é que, além de não gostar de usar a mesma frase manjada que ouvi por anos, quase nunca desejo isso de verdade. Ou melhor, até desejo, mas não só porque é Páscoa ou ano novo ou dia das mães ou das crianças... Senão eu teria que chegar e dizer ‘Amigo, só porque hoje é Natal eu quero coisas boas na sua vida. Nos outros dias eu quero que você se dane!’ Mas isso também não traduziria a realidade. Acho... Quando alguém faz aniversário é mais simples: você dá parabéns à pessoa por existir, deseja a ela um bom dia e pronto. É bem mais sincero. Este ano a japs e eu passamos o Reveillon com amigos num barco no rio Tâmisa. Quando o Big Ben anunciou a chegada de 2013 e os fogos iluminaram o céu, nos abraçamos todos e, embriagados, desejamos o tal do feliz ano novo. Das palavras que eu falei e das que eu só pensei, todas tinham um enorme significado naquele momento, porque estivemos juntos na maior parte de 2012, e eu sei o quão difíceis foram os 12 meses passados pra esses amigos. E como os vejo constantemente se esforçando e se reinventando pra que os próximos 12 sejam de fato mais felizes, eu desejei a eles, sinceramente, as melhores coisas do mundo. Não porque eles são meus amigos e precisam ganhar coisas boas, mas porque são pessoas empenhadas em conseguir algo melhor. Seria até injusto que todos tivessem anos excelentes, se só uma parte bem pequena se esforça pra merecer. Acho que é algo nessa linha que eu gostaria de dizer aos outros na virada do calendário:
Em 2013 eu quero que você tenha muita paz, desde que não arranje confusão. Que seu ano seja tranquilo se você lutar só as batalhas importantes e ignorar as provocações que não valem a pena. E se você usar uma arma pra arranjar briga no trânsito ou aproveitar da vantagem de um grupo pra agredir um inocente indefeso, que seja cancelado o seu direito de reclamar se o seu irmão ou a sua mãe forem vítimas da violência dos outros.
Que você receba de volta todo o amor que der. Desejo do fundo do coração que você seja sincero em todas as suas relações, e que as pessoas à sua volta te paguem na mesma moeda. E que elas sejam ainda mais justas com o troco se você for falso, interesseiro ou desinteressado.
Saúde eu te desejo de qualquer forma, mas meu desejo não é milagreiro. Muitas doenças acontecem independentemente dos hábitos, mas várias outras só podem ser evitadas por você. Lembre-se que o corpo é uma máquina que enferruja se não tiver atividade, que estraga se não desligar às vezes, e que precisa de combustível de qualidade pra funcionar corretamente. Cuidado com os venenos que você coloca diariamente no motor.
Que nesse ano você aprenda a enxergar a maravilha das situações mais simples e despretensiosas, e que ache o humor escondido em cada um dos seus maiores problemas. Se você conseguir isso, aquela alegria que eu tanto lhe desejava vai finalmente te acompanhar em todos os dias da sua vida.
Eu jamais desejaria que você ganhasse dinheiro, mas quero que tenha muito fôlego e dedicação pra se empenhar em projetos novos e no trabalho, seja qual for. Realize tudo, do começo ao fim, com 100% do seu entusiasmo. Ninguém recebe nada sentado no sofá, e eu realmente espero que com você não seja diferente. Você pode até se sentir mais confortável descansando, mas no fim do dia é bem melhor ter feito algo do que não ter feito porra nenhuma. Quero que você conquiste tudo aquilo que tentar, mas que jamais ganhe nada sem merecer. Isso poderia fazer a diferença entre te tornar um vencedor ou um sortudo. E, honestamente, já temos sortes demais em estarmos vivos e conscientes disso.
Agora para de perder tempo, tira a bunda da cadeira e comece a fazer algo! Ano que vem a gente se fala!










